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Coletivo de mulheres luta pela preservação da cultura da Guerra de Espadas em Cruz das Almas

 



O São João de Cruz das Almas carrega uma fama que vai muito além dos grandes shows de palco e das multidões que tomam a cidade. No coração do Recôncavo, a identidade da festa também inclui fumaça e chamas que riscam o chão. A Guerra de Espadas - amada por uns e odiada por outros - é um sistema de saberes antigos que envolve trabalho durante todo o ano para a fabricação artesanal de tubos de bambu preenchidos com pólvora e argila. Quando a queima acontece, no mês de junho, é o ápice da herança de muitas famílias, passada oralmente por gerações. Essa cultura controversa acaba de ganhar uma nova camada de cuidado e proteção.

Fundado em janeiro deste ano, o Coletivo Espada Rainha é uma iniciativa de mulheres, que atua para transformar a tradição em uma ferramenta de educação e memória. O grupo entende que a espada é um patrimônio vivo e busca garantir que essa história não seja apagada pela marginalização (a queima de espadas é proibida, em Cruz das Almas, desde 2011), mas sim ressignificada com responsabilidade.

Apesar do histórico protagonismo masculino, engana-se quem pensa que a presença das mulheres nessa cultura é irrelevante. Elas sempre foram os pilares invisíveis da tradição, tanto participando das “guerras”, quanto cuidando da organização das festas e da manutenção das famílias espadeiras. Muitas também fazem parte da cadeia de fabricação dos artefatos. Sabrina C. Machado, fundadora do coletivo, explica que o movimento nasceu justamente para dar luz a essa participação.

Segundo Sabrina, “o grande estalo foi perceber que as mulheres sempre estiveram presentes na tradição, mas quase nunca eram reconhecidas como protagonistas. Elas estavam nas ruas, nas famílias espadeiras, na memória das histórias, na organização das festas e muitas vezes também na própria vivência da cultura. O que faltava era visibilidade”. Para ela, ocupar esse espaço é um direito. “Não queremos tomar o lugar de ninguém, mas ocupar um espaço que também é nosso”, afirma.
O coletivo trabalha para enfrentar o preconceito que muitas vezes reduz a tradição apenas ao viés do perigo ou da ilegalidade.

A  proposta é focar no conhecimento técnico, na cultura e na delicadeza do processo de fabricação. Caroline Ceci Chagas, integrante do grupo, acredita que o olhar feminino traz um cuidado especial para a salvaguarda desse patrimônio, sem o enfrentamento judicial ou o descumprimento da lei. O coletivo não promove queimas de espadas nem incentiva qualquer atividade ilegal. A proposta é atuar na conscientização sobre a importância cultural da tradição.

“A gente tá trabalhando muito para desmistificar esse preconceito. A gente tá trabalhando com a educação para mostrar que a espada não é apenas um artefato aleatório. Existe todo um saber tradicional na fabricação desse artefato. O corte do bambu, a dosagem da pólvora, a amarração do bambu, tem todo um processo por trás disso”, defende. Para ela, documentar esses passos é essencial. “Tira a espada da margem, e a coloca em um lugar de patrimônio imaterial, que é o que já deveria ter sido feito”.

 



Correio


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